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Como interpretar a relação entre o preço de uma ação e o seu valor patrimonial

24/01/2012 - Atualizado em 24/01/2012

açãoindicador fundamentalista mais utilizado para avaliar se umaação está supervalorizada ou barata é, sem sombra de dúvidas, a relação Preço/Lucro, que estabelece a relação entre o preço de uma ação e o lucro proporcional da empresa. Mas outro indicador que é bastante utilizado na análise fundamentalista é a relação entre o preço da ação e o valor patrimonial proporcional a ela: o Preço/Valor Patrimonial da Ação (ou P/VPA). Vejamos como utilizar esse indicador para avaliar se o preço de uma ação é justo.

Entendendo a relação entre a cotação e o valor patrimonial de uma ação

O P/VPA compara o preço de uma ação em relação a todo o seu patrimônio líquido. Ou seja, é uma indicação a respeito de quanto os acionistas estão dispostos a pagar, atualmente, pelo patrimônio líquido da companhia.

Calcular a relação P/VPA é relativamente simples: basta dividir o preço da empresa pelo valor patrimonial de cada ação. São necessárias, portanto, duas continhas básicas: em primeiro lugar, deve-se encontrar o valor patrimonial da ação. Para encontra-lo, basta dividir o patrimônio líquido da empresa (que você encontra nos seus balanços) pelo número total de ações. A fórmula, portanto, é a seguinte:

VPA = Patrimônio líquido / Número total de ações

Por exemplo, o patrimônio líquido do Banco do Brasil (BBAS3), hoje, é de R$ 56.279.100.000, e o número total de ações da empresa é de 2.865.420.000.  Dividindo-se um pelo outro, temos um VPA = 19,64. Ou seja, cada ação do Banco do Brasil tem uma parte do patrimônio líquido do banco equivalente a R$ 19,64.

Para calcular o P/VPA, basta dividir o preço da ação pelo VPA:

P/VPA = Preço/Valor Patrimonial por Ação

Voltemos ao caso do Banco do Brasil. A cotação de cada ação da empresa (BBAS3) está em R$ 24,70 no momento em que escrevo. Ou seja, cada ação custa R$ 24,70, sendo que R$ 19,64 correspondem exclusivamente ao seu patrimônio líquido. Dividindo-se um valor pelo outro, temos a seguinte relação:  P/VPA = 24,70/19,64 = 1,26 (aproximadamente). Ou seja, a ação do Banco do Brasil está sendo negociada a um valor aproximadamente 25% superior ao seu valor patrimonial. Levando-se em consideração que só o Lucro Por Açãoda empresa, nos últimos 12 meses, está na casa dos R$ 4,59, isso significa dizer que o Banco do Brasil está sendo negociado a um preço equivalente à soma de seu patrimônio líquido com o seu lucro por ação em um ano. Sem contar os lucros futuros. Aparentemente, um bom negócio, não é? Se os lucros crescerem (e nos últimos anos têm crescido a uma taxa bastante razoável), o investidor não terá pago praticamente nada pelos lucros futuros…

A relação entre o preço e o valor patrimonial da ação permite que esse tipo de análise seja efetuada, e mostre um pouco do real valor do ativo que estamos levando ao comprar uma ação. O preço de uma ação não vale nada por si só: somente quando o comparamos com esses indicadores é que podemos ter uma noção a respeito de seu valor e de se o preço cobrado é justo ou não. Acredito que o caso do Banco do Brasil mostre isso relativamente bem.

Como utilizar o indicador P/VPA para avaliar o preço de uma ação

A relação P/VPA traz três possibilidades: ou é inferior a 1, ou superior a 1, ou igual a 1. Óbvio… mas o que isso significa e como esse valor pode afetar a avaliação a respeito do preço da ação?

Um índice P/VPA igual a 1 significa que a ação está sendo negociada pelo equivalente a seu patrimônio líquido. Se esse índice for superior a 1, indica que os acionistas estão, atualmente, topando pagar mais pela ação do que todo o patrimônio líquido da empresa. Às vezes isso faz sentido, pois a empresa pode não precisar tanto assim do seu patrimônio para gerar valor para o acionista, ou porque as expectativas de crescimento do lucro são tão altas que o patrimônio líquido possivelmente crescerá a uma taxa relativamente elevada nos próximos anos.

Um índice P/VPA inferior a 1, por sua vez, indica que o acionista está comprando ações da empresa por um preço inferior ao do seu patrimônio líquido. Um dos critérios propostos por Benjamin Graham para encontrar empresas baratas era justamente procurar por ações que estivessem negociadas abaixo de ? do seu valor patrimonial. Ou seja, a uma relação P/VPA inferior a 0,66. Mas é importante tomar cuidado para não utilizar unicamente a relação P/VPA: uma empresa normalmente é negociada a preços muito inferiores ao seu patrimônio líquido apenas quando o mercado acredita que ela está passando por problemas em suas atividades operacionais. Obviamente, o mercado está errado: mas para saber isso é preciso fazer outros estudos sobre a empresa.

É importante notar, ainda, que empresas de setores diferentes podem apresentar uma relação P/VPA bastante diferente. Afinal, existem empresas que necessitam de muitos prédios, máquinas de produção, computadores, mesas, etc. para funcionar. Em outros casos, quase nada disso é necessário, porque a empresa não precisa dispor de muito patrimônio para realizar suas atividades.
Compare, por exemplo, Ambev e Cielo. A Ambev precisa de ter muito patrimônio para operar. Ela tem muitas fábricas, e precisa tê-las para produzir cervejas e refrigerantes. A Cielo, por sua vez, não necessita de tanto patrimônio: ela compra suas máquinas de outras empresas e necessita ter, basicamente,  a estrutura para efetuar o processamento das negociações. E isso se reflete na relação P/VPA de uma e de outra empresas: no caso da Ambev, essa é uma relação de 7,98; e, no caso da Cielo, de 21,92. O elevado P/VPA no caso da Cielo se justifica porque seu patrimônio líquido é tão baixo que não faz sentido avaliar a empresa a partir dele. No caso da Ambev, o patrimônio líquido já é mais importante, porque é a partir dele que a empresa faz seu negócio girar. Tanto é assim que a Redecard, concorrente da Cielo, também apresenta uma relação P/VPA elevada, na casa de 17. Já no caso do Banco do Brasil, seu P/VPA é baixíssimo (quando comparado a essas empresas), na casa de 1,25. Itaú e Bradesco, respectivamente, apresentam P/VPA de 2,14 e 2,22.

Enfim, o que é importante extrair disso tudo é que o P/VPA, embora seja um indicador importante, não pode ser utilizado isoladamente. Ele deve ser utilizado com cuidado, e especialmente para avaliar setores que utilizem muito capital em suas atividades operacionais (como é o caso dos bancos, por exemplo). Mas, de qualquer maneira, também pode ser utilizado para encontrar boas pechinchas no mercado – desde que, repito, não seja utilizado isoladamente. Às vezes, um baixo P/VPA pode estar indicando apenas que a empresa está mal das pernas.

OBS: as empresas listadas foram mencionadas apenas ilustrativamente, não significando recomendação de compra. Das citadas, sou proprietário de ações da Ambev, da Cielo e do Banco do Brasil.

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